domingo, 30 de agosto de 2009

Hibridismo

Entre o que existe, o que está por existir? entre várias formas, uma terceira forma? Elas se criam por fusão ou justaposição? Alimentam-se umas às outras, tornam-se orgânicas ou negociam diferenças ao serem colocadas em relação?
Por enquanto, experimentamos:
bailarinos dançam textos interpretados por atores que atuam com a musicalidade criada na hora a partir de instrumentos virtuais. As linguagens se contrapõem, se entrosam, se chocam: algo aos poucos vai se modificando entre as duas partituras já prontas: a coreografia inspirada em Água Viva, de Clarice Lispector, a peça teatral inspirada em Esperando Godot, de Samuel Beckett. Justaposição? Tradução? Combinação? Por enquanto as fronteiras se mantêm, mas tocam-se, seduzem-se, tornando-se cada vez mais porosas, sensíveis, permeáveis.
Foto: Ana Maria Rebouças - Esfinge/ Museu do Vaticano

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

heterotopia interna

O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida e escura madrugada. Há muito já não sou gente. Quiseram que eu fosse um objeto. Sou um objeto. Objeto sujo de sangue. Sou um objeto que cria outros objetos e a máquina cria a nós todos. Ela exige. O mecanismo exige e exige a minha vida. Mas eu não obedeço totalmente: se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita. Há uma coisa dentro de mim que dói. Ah como dói e como grita pedindo socorro. Mas faltam lágrimas na máquina que sou. Sou um objeto sem destino. Sou um objeto nas mãos de quem? tal é o meu destino humano. O que me salva é o grito. Eu protesto em nome do que está dentro do objeto atrás do atrás do pensamento-sentimento. Sou um objeto urgente. (Clarice Lispector, Água-Viva).

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Percepção do espaço

O Espaço GAG e Cia. Phila 7 trazem o conceito de heterotopia para pensarmos esse espaço que estamos criando com o projeto Zona de Risco. Seguem abaixo trechos do texto de Michel Foucault:

Existem países, cidades, continentes, planetas, universos “sem lugar”, os quais seria impossível encontrar num mapa, e histórias sem cronologia. Esses lugares, esses tempos, nascem na cabeça dos homens, nas suas narrativas, nos seus sonhos, no vazio de seus corações. São a doçura das utopias. Mas eu acredito que existem em todas as sociedades algumas utopias que ocupam um lugar real, um lugar que podemos situar num mapa, que têm um tempo determinado, um tempo que podemos fixar e medir segundo o calendário de todos os dias. É bem provável que cada grupo humano recorta no espaço onde está lugares utópicos e recorta no tempo momentos “ucronicos”. O que quero dizer é que nós não vivemos num espaço e num tempo neutro e branco. Não vivemos, não morremos, não amamos no retângulo de uma folha de papel. Vivemos, morremos, amamos num espaço esquadrinhado, recortado, desenhado, com zonas claras e escuras, com diferenças de níveis, com escadas, portas, penetráveis e impenetráveis.

Mais trechos AQUI.
Imagem: Ricardo Carioba
Arte: Adriane Bertini

Pergunta insistente: "E o tema?"

Um instante me leva insensivelmente a outro e o tema atemático vai se desenrolando sem plano mas geométrico como as figuras sucessivas num caleidoscópio (Clarice Lispector, Água Viva)

Vamos levantando questões sobre cada proposta e selecionando procedimentos que possam colaborar para a criação conjunta, gerando novas contaminações e desdobramentos. No momento, parece que a discussão está mais voltada para a definição de um conceito que possa conter as idéias de todos os grupos e suas propostas. A questão do conteúdo, do tema, vai se dando aos poucos, conforme vamos entrando em contato e discutindo aspectos de cada trabalho.

Processos criativos

Cada trabalho traz um conteúdo, um tema, uma forma.
Quais recursos utilizam? Como relacioná-los?
Várias possibilidades foram levantadas para a sessão de abertura no dia 5 de setembro: - seleção, combinação, colagem: um roteiro que selecione e combine trechos dos quatro trabalhos, acionando as instalações alternadamente ou simultaneamente (pode-se partir do acaso e da imprevisibilidade ou do estudo de cada proposta, procurando criar uma dramaturgia híbrida); - tradução, recriação: a partir do contato com cada proposta, criar expressões inspiradas nelas. Músicos, bailarinos e atores podem criar partituras que dialoguem com um trabalho a ser escolhido, expressando leituras interlinguísticas. - diálogo, intervenção, interação – cada grupo, ou alguns membros de um grupo, ou um grupo interdisciplinar formado entre os participantes, faz uma intervenção artística em outros trabalhos instalados no espaço. A sessão seria composta por trocas performáticas entre artistas e cenários. - happening – um ENCONTRO entre grupos que querem simplesmente trocar experiências e compartilhá-las com amigos, com quem trabalha ou freqüenta o Centro Cultural São Paulo e com outras tribos. No porão, podemos fazer uma festa com música, dança, performance, projeção de imagens e conversa com quem estiver presente. Em ENCONTRO entre quatro diferentes grupos contaminando-se e contaminando o espaço com as vibrações de suas vozes, corpos, instrumentos, estimulando os sentidos. Poderia ser um bom começo para abrir a temporada com um evento descontraído e descompromissado. Quatro grupos, quatro propostas, quatro linguagens artísticas se relacionando informalmente. - Dissolução de fronteiras, hibridização – Rubens Velloso, diretor da Cia. Phila 7, propõe pensar num “espaço heterotópico” que contém muitos espaços. Nessa dimensão espaço-temporal que se pretende criar, não há mais como pensar em linguagens específicas como dança, teatro, música, artes plásticas. O que pautaria o processo seriam corpo, imagem, texto e o funcionamento de cada sistema no conjunto da apresentação, em um espaço expandido. É uma proposta a ser desenvolvida e se aprofundará ao longo de toda a temporada.

Afinidades, acasos

Encontro dia 21, 16h _ Sessão DVD - Entropicália _ Troca de DVDs, imagens e textos entre os grupos _ Ensaio entre bailarinos, atores e músicos - tentativa de aproximação entre os trabalhos apresentados por cada grupo: Wetudo - Desesperando Godot, espetáculo teatral baseado no texto de Beckett; Olhar Oblíquo, dança inspirada no livro Água Viva, de Clarice Lispector e Lispector, proposta musical inspirada na autora.
Müvi e Cia. Maurício de Oliveira e Siameses têm como referência o livro Água-Viva, de Clarice Lispector, para a criação de música e dança, respectivamente. A Cia. Maurício de Oliveira e Siameses mostrou um pequeno trecho da coreografia de Olhar Oblíquo. Marcos Azevedo, ator da Phila 7, encontrou uma conexão entre os personagens becketianos Vladimir e Estragon e o trabalho das duplas de bailarinos da Cia. Siameses, que aproxima-se da relação de dominação entre Pozzo e Lucky.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Agenda de ensaios

Cada grupo falou sobre o trabalho que vai apresentar e em seguida, como está pensando a interação e a participação no projeto Zona de Risco. Uma agenda de ensaios foi preenchida com os horários de permanência de cada grupo no espaço. A partir dela, artistas de diferentes grupos podem combinar de aparecer, participar e trazer idéias nos ensaios dos demais.

Reformulação

O projeto inicial previa apresentações dos trabalhos específicos de cada grupo antes das apresentações conjuntas, para dar tempo de todos entrarem em contato e discutirem propostas. Mas tivemos que reformular essa agenda porque a empresa de iluminação só entraria com o equipamento no espaço a partir de setembro. A opção foi concentrar o período de convivência em agosto, iniciando as apresentações em setembro, já com uma sessão conjunta de abertura no dia 05 de setembro. A falta de tempo gerou certa instabilidade e apreensão. Aumentou a sensação de estarmos numa ZONA DE RISCO.

Finalmente entramos todos numa zona

19 de agosto. Enfim chegou o dia do encontro entre os artistas de dança música teatro artes visuais. As pessoas, pouco a pouco, dirigiram-se às duas arquibancadas colocadas frente a frente. Os dois integrantes do Grupo de Reflexão Interdisciplinar (GRI), Roberto Winter e Luísa Proença, sentaram-se na arquibancada da esquerda, observando tudo do alto. Ao fundo, nossa cameragirl Alexandra Itacarambi. Logo abaixo, os atores da Cia. Phila 7, Marcos Azevedo e Beto Mattos. Sentada entre eles, abaixo, a iluminadora Mirella Brandi. Os dois bijaris presentes, Rodrigo Araújo e Eduardo Fernandes, acomodaram-se na arquibancada da direita; acima, o diretor teatral Rubens Velloso. Em primeiro plano, o grupo de dança, vendo-se, de costas, Maurício de Oliveira entre duas "siamesas" sentadas de lado. A equipe curatorial do CCSP procurou cadeiras soltas ao fundo. Os músicos dispersaram-se pelo espaço, mas vê-se Ricardo Carioba ao fundo, de costas.
Foto: João Mussolin

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Percepção do espaço

A contaminação já começou antes do período de convivência, no dia em que os artistas e técnicos foram ao porão para reconhecer e dividir o espaço entre as quatro propostas de montagem. Ao invés de cada um escolher um nicho para instalar seu projeto e mapa de luz, decidiram encaixar cenários e dividir equipamentos de forma que possam criar zonas de intersecção e interação. Um mapa de luz único será criado para contemplar todas as montagens.
Imagem: Ricardo Carioba, para o projeto Zona de Risco

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Programação de lançamento

O coletivo BijaRi (artes visuais), a Cia. Maurício de Oliveira e Siameses (dança), o duo Müvi (música) e a Cia. Phila 7 (teatro) são as companhias que estão estreando o projeto-piloto Zona de Risco no Espaço Cênico Ademar Guerra do Centro Cultural São Paulo. Como esses grupos já vêm realizando pesquisas inovadoras com outras linguagens artísticas e apresentam questões e formalizações atuais e instigantes, a programação de lançamento concilia remontagens (com exceção do Müvi, que apresentará uma criação em processo) com sessões inéditas de recriação e experimentação. A partir de 05 de setembro, cada grupo apresentará seu trabalho em um dia específico da semana, de terça a sexta-feira. Aos sábados, nas Zonas Abertas, as apresentações serão frutos das recíprocas contaminações e interações entre os participantes. As questões que surgirem desse processo de convivência, apresentação e criação serão discutidas no ciclo de conversas Zona Franca, ao longo do mês de setembro.
Veja aqui a programação completa.

Percepção do espaço

O projeto pretende potencializar o uso do Espaço Cênico Ademar Guerra, transformando-o em um laboratório experimental organizado espacialmente de forma rizomática em campos circunstancialmente demarcados pela luz e pelos objetos, redefinindo-se de acordo com as diferentes propostas de encenação e instalação. Essa disposição permitirá trocas entre grupos e estimulará pesquisas que tenham como fundamento procedimentos artísticos contemporâneos, tais como recriação, colagem, combinação, entre outros. Nas Zonas Abertas, nenhuma sessão será igual à outra. Tudo vai depender dos roteiros provisórios que os artistas traçarem em cada sessão.
foto: Daniel Damiani/ sistemanervoso.com